Galaxie 500 1967 completa seus 50 anos e é o carro mais luxuoso do Brasil





Galaxie 500 1967 completa seus 50 anos e é o carro mais luxuoso do Brasil

Galaxie 500 1967: bodas de ouro do carro mais superlativo produzido no Brasil até hoje!

Fotos: Divulgação | Texto: Raphael Panaro | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

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Em 1967, comparar os carros nacionais aos produzidos nos Estados Unidos, era como comparar um Smartphone a uma máquina de escrever. Agora imagine dar esse salto de um dia para o outro? Foi o que aconteceu. Em um belo dia a Ford passou a importar para cá o imenso Galaxie 500, derivado do modelo americano de mesmo nome. Com 5,2 metros de comprimento 5,3 metros de comprimento por 2 m de largura, ele arrastou muita gente para vê-lo de perto no estande da marca no Salão do Automóvel de São Paulo de 1966, que se realizava no Ibirapuera.

O carro tornou-se o centro das atenções não apenas por causa do porte, mas pelo requinte inimaginável a quem guiava os JK 2000 e ao Itamaraty, a versão de luxo do Aero Willys lançada naquele Salão de 1966.

No entanto, o Galaxie era suntuoso em todos os aspectos. Custava 3,5 vezes mais caro que o Renault Gordini III, o carro brasileiro pé-de-boi da época. A aceitação foi imediata: o sedã vendeu 1.485 unidades no primeiro ano.

Customização
O Galaxie 500 1967 das fotos é um dos primeiros exemplares de produção nacional e traz a combinação de cores preto Sideral com interior vermelho, rara de se encontrar. Extremamente personalizável, o Galaxie o catálogo do modelo trazia 52 possibilidades de personalização para o modelo. O comprador também poderia optar pelas supercalotas de alumínio que envolviam toda a área das rodas de aço pintadas na cor da carroceria – o Galaxie saía de fábrica, de série, com calotas parciais. Era comum, a propósito, as calotas se desprenderem com o carro em movimento por falha de fixação, problema que seria solucionado algum tempo depois.

Lançado originalmente em 1959 nos Estados Unidos como sucessor do Fairlane, o Galaxie tinha naquele país seis diferentes confi gurações de carroceria, entre as quais o cupê e o conversível. O sedã escolhido pela Ford para inaugurar sua linha de automóveis nacionais no Brasil faz parte da terceira geração, lançada em 1965 nos EUA e tirada de linha em 1968 para a chegada da quarta e última geração – que nunca foi cogitada para vir para cá.

O grande sedã foi eleito para estrear a linha de carros nacionais da Ford porque até 1967, antes da compra da Willys Overland, a marca não tinha nenhum compacto na linha da matriz americana. Cogitou-se, a princípio, em trazer o Fairlane, mas o modelo estava prestes a sair de linha (sua produção encerrou-se em 1961). Também se falou no Falcon, o carro que deu base ao Mustang, no Taunus e no Cortina europeus. O Galaxie, fi nalmente, foi a opção imposta pelo QG em Dearborn: além de luxuoso e espaçoso para atender ao público que comprava os grandes automóveis americanos nos anos 1950 e 1960, usava a mesma base do motor Power King, o V8 a gasolina do caminhão F600 e da picape F100 que desde 1957 eram fabricados no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Foi um tiro certeiro, no coração dos anseios dos brasileiros mais abastados.

(Voltaremos ao personagem desta história em seguida. Antes, vamos lembrar que a aquisição da Willys rendeu à Ford o surgimento, em 1968, do Corcel, um projeto que vinha sendo desenvolvido em conjunto com a Renault – que lançou o
Renault 12. O compacto, que surgiu com carrocerias de duas, quatro portas e perua sobreviveu por duas gerações, formou família e encerrou a carreira em 1986).

Volante deformável
Sob o capô trabalhava um V8 de 4.5 litros com cabeçote e dutos em alumínio (principal diferença para o motor dos utilitários de origem), bloco de ferro e carburador Dfv de corpo duplo. Essa usina de força rendia 166 cv de potência e um torque de 33,4 mkgf a apenas 2.600 rpm, números um tanto contidos para empurrar seus 1.760 kg de peso. A velocidade máxima não ia além dos 160 km/h e a aceleração 0 a 100 km/h era feita em 15 s, conforme aferições da fábrica. Contudo, quando você está ao volante desse corpanzil sente que o torque se sobressai o tempo todo. O sedã arranca com disposição e sempre com suavidade, enganando sobre os quilos na balança.

Essa falta de disposição após certas velocidades se explica muito pelos tipos de transmissão usadas na época. O modelo de 1969 vinha com câmbio manual de três marchas (o automático de três marchas estreou na versão LTD, que também oferecia a opção do ar-condicionado) com a delgada alavanca de metal cromado na coluna de direção e de acionamento suave.

Suavidade, a propósito, era a característica mais valorizada pelos donos do Galaxie, um sedã de tração traseira montado sobre chassi. Conta-se que durante a fase de desenvolvimento no Brasil, duas preocupações tiraram noites de sono dos técnicos: o isolamento acústico da cabine e o conforto de marcha. Diversos pontos da carroceria, do eixo cardã e da coluna de direção ganharam elementos elásticos com o intuito de reduzir ruídos e vibrações. As molas da suspensão, independente na dianteira e eixo rígido traseiro, também ganharam a calibração voltada para o conforto. Os bancos inteiriços como sofás de molas, eram outro elemento de extrema suavidade. A direção hidráulica era opcional e era tão leve que se podia girar o volante – quatro voltas de batente a batente – com um dedo. A progressividade da direção não era o forte do modelo: mesmo em velocidade, não ganhava tanto peso. Em contrapartida, o Galaxie foi o primeiro carro nacional a contar com volante deformável em caso de colisão e com pneus sem câmara. Introduziu, igualmente, o retorno automático da alavanca de seta, o sistema de ventilação de três velocidades e o rádio com três faixas de frequência.

Régua e esquadro
Com admiráveis proporções dos três volumes, o Galaxie parece ter sido feito com régua e esquadro. Nem o exagerado balanço traseiro incomoda os olhos. A coluna C era larga em oposição às estreitas colunas dianteiras, mas a vigia traseira permitia excelente campo de visão. As quatro portas eram amplas e se mantinham abertas em duas posições por ação de molas limitadoras. Criado para a conservadora classe média americana, não trazia nenhuma ousadia no desenho, à exceção dos cromados aplicados na grade dianteira, para-choques e ao redor da carroceria. Até 1976, os dois pares de faróis eram sobrepostos e as lanternas traseiras, retangulares.

O desenho do painel é igualmente sóbrio e espartano: os instrumentos limitam-se ao velocímetro com escala horizontal até 200 km/h varrida por uma agulha vermelha, ao hodômetro total e ao indicador do nível de combustível com três escalas integrado ao velocímetro. À direita, no mesmo módulo, o rádio com dois botões e cinco teclas, uma das quais para acionar os altofalantes traseiros. O cluster é completado por um relógio analógico, pelo botão de acionamento dos faróis e por alavancas deslizantes do sistema de ventilação e do limpador de para–brisa com duas velocidades. O alerta da temperatura do motor era dado por uma das luzes-espia. Havia ainda o botão de afogador ao lado da luz espia do freio de estacionamento, acionado pelo pé.

Os detalhes de acabamento, no entanto, ainda impressionam. A forração das portas tinha o mesmo padrão dos bancos, uma combinação de couro sintético com tecido, o painel era revestido com plástico macio e o volante, com meio aro para acionamento da buzina, era moldado com material agradável ao tato. Repare nas fotos que até a coluna de direção vinha com o tom monocromático do interior. Vidros elétricos eram luxo para poucos modelos na época: as janelas eram movimentadas por meio de manivelas, mesmo sistema usado para a abertura dos quebra-ventos. Em um tempo em que os grandes sedãs modernos levam apenas quatro passageiros, seis adultos podiam se acomodar com conforto no Galaxie, embora sem a segurança dos cintos transversais: havia apenas dois pares de cintos diagonais no modelo.

Outra característica rara encontrada neste Galaxie é a ausência do retrovisor externo esquerdo, item não obrigatório na época e que só seria adotado em 1968, um ano depois da estreia. Embora o campo de visão seja amplo por conta da generosa área envidraçada, a falta do retrovisor dificulta a condução do carro no trânsito e nas manobras de estacionamento. Lembre-se: estamos falando de um carro com 1,5 m a mais no comprimento que o Ford Ka. A maior deficiência do sedã, no entanto, são os freios, a tambor nas quatro rodas. Os discos só seriam oferecidos a partir da linha 1972. O maior sedã produzido no Brasil resistiu com poucas mudanças até 2 de abril de 1983, depois de 77.850 unidades  fabricadas.

GALAXIE 500 1967
PREÇO EQUIVALENTE: R$ 237.604
VEÍCULO: motor dianteiro, tração, traseira, sedã, 4 portas, 6 passageiros
MOTOR: V8 4.5 aspirado a gasolina
POTÊNCIA:166 cv a 4.400 rpm
TORQUE: 33,4 mkgf a 2.400 rpm
TRANSMISSÃO: manula, 3 marchas
DIMENSÕES: comprimento 5,33 m
ENTRE-EIXOS 3,02 m
LARGURA 2,00 m
ALTURA 1,46 m
PESO : 1.760 kg



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